estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)

Sábado, Julho 14, 2007

As ideias atrapalhavam-se umas às outras. Em contínuo movimento, como electrões à volta de um núcleo sujeito a radiação, chocavam umas contra às outras em alegre turbilhão.
Doia-lhe a cabeça. Já tomara o café habitual mas não passara. As ideias pareciam ainda mais doidas às voltas.
Seria assim a cabeça de um esquizofrénico? Seria ele um esquizofrénico?
Não sabia, só sabia que doía. Doía muito.
Só sabia que não conseguia fazer mais nada enquanto a euforia não passasse, enquanto as ideias não se apagassem.
Pegou numa caneta e tentou desenhar, não conseguia. Escrever, também não.
Começou a fazer pontos, pontos sem parar. Uns eram grandes, outros pequenos, uns juntos, outros espaçados, não parava de fazer pontos.

Quando finalmente percebeu que tinha acalmado, levantou-se, despiu a tshirt suada e deitou-se em cima da cama iluminada pelo sol quente do fim de tarde. Ainda não corria nenhuma aragem mas ele fechou os olhos. Pareceu-lhe adormecer por uns minutos, mas não sabia bem.
Levantou-se com fome. Dirigiu-se à mesa com a sandes que fizera, e que serviria de jantar, e deparou-se com algo que o deixou estupefacto.
Os pontos que fizera ganharam novo significado, afinal tomavam forma e vida, não se limitando a ser pontos. Desenhara de uma forma estranha, mas afinal ao contrário do que lhe parecera, desenhara!
À sua frente encontrava-se a razão da sua dor de cabeça: ela!

Sexta-feira, Julho 13, 2007

Apressado pegou no casaco e dirigiu-se para a porta.
Era imperdoável estar tão atrasado para os anos da Avó!
80 anos não se faziam todos os dias e nem todos podiam orgulhar-se de ter uma Avó que lhes ensinava de tudo um pouco, que lhes abria os olhos para a vida, que lhes contava histórias fantásticas e admiráveis que mudariam para sempre as suas percepções do mundo.
Sabia ser um privilegiado. Sabia ter sido ela que o tornara no homem bom que era, ainda que a modéstia em demasia por vezes o fizesse ter algum receio de o admitir.
Ela fizera-o ser assim. A ela devia todo o inconformismo que sentia perante o actual mundo egoísta! Por isso se sentia tão mal... Como pudera perder assim a noção do tempo... Como pudera banalizar esta data tão importante?!

Amargurado pensava como poderia compensar a querida senhora.
Remoia sobre tudo isto enquanto se dirigia para o carro.
Sem saber bem como já circulava na estrada movimentada. Ao menos era sábado, e as normais filas intermináveis eram bem mais modestas.
A voz quente da locutora de rádio fazia-se escutar em fundo:
"O mais importante não é o valor do que dás às pessoas, mas o valor que aquilo que dás tem para elas. Vale a pena pensar nisso".
Normalmente Nuno achava estes pensamentos idiotas e mudava rápidamente de estação de rádio.
Desta vez não o fez e pensou nisso.

Terça-feira, Julho 03, 2007

Oportunidades.
"A vida é feita de oportunidades!" tantas vezes o seu pai lhe dissera mas nunca acreditara...
Estava tão habituada a "safar-se" de tudo, que não compreendia o conceito de deixar escapar oportunidades...
Na realidade, nunca nada ficara por fazer, nunca nada ficara por alcançar...
Mas desta vez uma espécie de sombra negra pairava sobre si. Uma sombra que a mantinha alerta, pronta a emitir o sinal de alarme. Uma espécie de pedra no sapato que não magoa, mas faz sentir a sua presença.
Mas a pedra já estava afinal a magoar.Dizia ao cérebro enrodilhado para estar alerta, para desfazer todos os nós, todas as dúvidas...
Gritava com ela e dizia-lhe para abandonar a preguiça de tomar decisões, dizia-lhe para assumir uma postura diferente e original!
O pequeno ser dentro dela não queria ser original, continuava a levar a melhor, puxava-a para a "vagabundagem" e para o levianismo do stress de última hora! A adrenalina, os suores frios, o desatino intestinal... Era disso que o "pequeno vagabundo" se alimentava!
Desta vez não seria certamente diferente.
Ele ganhava sempre.

E resultava.
Esse era o problema. Nunca falhara...
E se desta vez fosse diferente?
E se desta vez não resultasse?