estórias sem fim e afins

estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)

Sábado, Setembro 13, 2008

Estórias que tinham ficado na gaveta

24 Fev 2008
Ficará para mais tarde saber se a decisão foi a mais acertada.

Este era o pensamento com que iriam viver ao longo das suas vidas, a incerteza do que teria sido se, em vez de seguir aquela estrada tivessem seguido outra.
Agora já nada disso interessava pois tinham sido felizes. Mas apesar de acabar de voltar do enterro do homem que amara durante quase 70 anos, Ana sentia que faltara sempre alguma coisa. Como se tivesse abdicado sempre, como se tivesse deixado algures um percurso inexplorado, algo inacabado.
Sempre se sentira uma priveligiada, sempre sentira que nascera para ser livre. Por vezes interrogara-se se nascera na época certa, mas a verdade é que esta tinha até sido uma época de verdadeira liberdade para as mulheres, liberdade de descobrir, de sentir sem culpas, sem entraves... Olhava para as netas e não revia a sua juventude na delas. Tudo tão formatado, tão idêntico, tão limpo e livre de perigos...
Ao sair do cemitério pensou com uma certa nostalgia que daqui a pouco estaria, também ela, metida dentro de um jazigo na companhia do companheiro de tantos anos. Tanto ainda para fazer...

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9 Dez 2007

Hoje encheste-me a alma.
Não te conheço, mas às vezes é como se pensássemos em uníssomo sentissimos da mesma forma. Como se tivêssemos sido feitos a partir da mesma costela de Adão... O problema é que eu não acredito em Deus e muito pouco em coincidências, e tu?
Bom, tu não sei, porque como disse não te conheço, mas sinto que vivemos em sintonia, como dois seres cujas almas se tocam e pensam em uníssono.
Isto não é uma declaração de amor, não poderia ser porque não te conheço, nem tu a mim... É apenas a admiração espelhada na minha face e no meu ser por me entenderes tão bem, por viveres em sintonia comigo. Haverá almas gémeas no mundo? Parece-me demasiado acreditar que sim... Talvez no fundo todos sejamos apenas muito parecidos.
Vemos as pessoas olhamo-las bem lá no fundo vemo-las para além delas e que fazemos depois de as ver? Lutamos, lutamos, mas ficamos cansados porque as pessoas não mudam, as pessoas não se mudam...
Pertencemos ao clube dos que se questionam demais, dos inconformistas, dos idealistas que pretendem salvar o mundo... Aqueles que pensam estar acima dos outros e que por isso conseguirão de facto tornar este mundo em algo melhor.
Loucos!! Eu e tu.
No fundo, não passamos de meros loucos ingénuos.

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3 Dez 2007
Ao passar piscaste-me o olho. Olhava através de ti, mas fixaste o meu olhar e piscaste-me o olho...

Achei-te intrusivo. Achei que abusavas de uma confiança que não te tinha dado!

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28 Set 2007
texto 3
Aquilo que começara como uma pequena brincadeira parecia começar a tomar proporções inesperadas.
Os sentimentos eram mesmo assim e ela nunca os soubera controlar ou relativizar.
As emoções, descontroladas por natureza, costumavam seguir o seu rumo e quando dava por elas pouco havia a fazer além de apanhar os pequenos cacos em que o seu coração se partira. Os remendos que tentara da vez anterior já não serviriam para o presente e cada vez se tornava mais dificil remendar aquele coração que começava a estar demasiado doente e amargurado.
Desta vez jurara proteger-se.
Não sabia onde havia falhado.
Temia o sentimento que começava a brotar e o seu coração magoado enchia-se de amor e de medo.

texto 2
Procuro-te em todo o lado mas não te encontro.
Não sei se és fantasia ou realidade.
Acho que te quero...
Quero-te...
Pergunto-me se és imaginação apenas da minha cabeça confusa.
Quero-te!
Ou pelo menos quero querer-te...
E se tu não me quiseres?

texto 1
O olhar cruzado foi rápido, quase ao de leve, mas houve um reconhecimento de algo mais.

Interrogam-se cada um em seu canto se os olhares e as palavras atrapalhadas queriam mesmo dizer mais alguma coisa.
Maldizem-se por não terem trocado contactos e procuram algum ponto de contacto que não seja muito flagrante mas lhes permita trocarem leves olhares nem que seja apenas mais uma vez!

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10 Jul 2007
O velho grupo de amigos reunira-se mais uma vez no local de sempre. Enquanto esperavam a chegada dos eternos atrasados iam falando de trivialidades de forma pouco animada. Não parecia tratar-se de uma festa, mas antes de um prolongamento de mais um dia de trabalho chato! A tentativa de parecer casual perdia-se na roupa formal e nos penteados demasiado alinhados, espelhos de uma vida diária formatada por excessivas preocupações com a aparência. Enquanto esperavam, um rapaz jovem passou no passeio separado escassos metros deles pela montra transparente do café. Simples e descontraído, percebia-se pertencer a uma classe diferente daquela que se encontrava ali reunida. Era bonito, pensaram a maioria das mulheres que acompanharam o movimento suave que passou, mais um engatatão pensou um dos amigos, enquanto voltava a olhar para o relógio e lamentava as horas que ainda passaria em frente ao computador a planear a apresentação do dia seguinte!

Finalmente chegam aqueles por quem esperam.
Quem os visse chegar não adivinharia pertencerem ao mesmo grupo.
Chegam desalinhados como sempre.
Ao contrário dos seus amigos nunca perceberam o conceito de parecer bem. Sentem-se sempre a mais no grupo mas forçam-se a acompanhar os seus eventos pois ela sabe que as amigas não lhe perdoariam o abandono e ele já não tem paciência para deixar entrar mais ninguém no seu pequeno círculo restrito.
À entrada do café-restaurante ela cruzou-se com o rapaz pelo qual as outras suspiraram e este olhou-a com interesse, mas ela nem se apercebeu, abstraída que vinha a pensar nos olhares reprovadores que receberia dentro de momentos. Lançou um breve olhar ao vidro espelhado da entrada para perceber se de alguma forma o trabalho que tivera antes de sair de casa ainda era recompensado. O vidro devolveu-lhe um olhar reprovador e ela entrou com temor no moderno café. Viu as caras cansadas e pouco animadas que a esperavam e imaginou o que teriam para lhe dizer, apenas uma delas se abria num sorriso caloroso mas ela tinha vontade de fugir só de pensar no que a esperaria se o retribuísse de forma excessivamente entusiasta.

Sentou-se e deixou-se envolver pelo fraco calor humano do local. Sentia definitivamente que o mundo urbano não era para ela. Voltou aos seus pensamentos e voou dali para fora com a certeza de que no dia seguinte diria: "Sim, gostei muito da festa de ontem!"
Ele nem se apercebeu do rapaz, entrou no café e apesar dos acenos e sorrisos do grupo que os esperava não os viu logo e olhou em volta com o olhar interrogador de sempre, ao vê-los esboco um ligeiro sorriso e interiormente pensou que se ela estava feliz por ali estar, que mal fazia aturar 3h de conversas desinteressantes?!

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11 Jun 2007
Apressado pegou no casaco e dirigiu-se para a porta. Era imperdoável estar tão atrasado para os anos da Avó!
80 anos não se faziam todos os dias e nem todos podiam orgulhar-se de ter uma Avó que lhes ensinava de tudo um pouco, que lhes abria os olhos para a vida, que lhes contava histórias fantásticas e admiráveis que mudariam para sempre as suas percepções do mundo.
Sabia ser um privilegiado. Sabia ter sido ela que o tornara no homem bom que era, ou pelo menos ele assim se achava, ainda que a modéstia em demasia por vezes o fizesse ter algum receio de o admitir.
Ela fizera-o ser assim. A ela devia todo o inconformismo que sentia perante o mundo egoísta em que vivêmos. Por isso se sentia tão mal... Como pudera perder assim a noção do tempo... Como pudera banalizar esta data tão importante.

Amargurado pensava como poderia compensar a querida senhora.
Pensava sobre tudo isto enquanto se dirigia para o carro que sem saber bem como já circulava em direcção à estrada movimentada.
Ao menos era sábado, e as normais filas intermináveis eram bem mais modestas.

A voz quente da locutora de rádio fazia-se escutar em fundo:
"O mais importante não é o valor do que dás às pessoas, mas o valor que o que dás, tem para elas". Normalmente Nuno achava estes pensamentos idiotas e mudava rápidamente de estação de rádio, mas desta vez não o fez e sentiu-se reconfortado.

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21 Set 2006

Para quem não desiste...


O sonho comanda a vida já dizia o poeta...
Todos os dias Rui pensava na sua vida e no que é que dela fazia sentido. Cansava-se de escutar todos os outros a queixarem-se do emprego que tinham, das situações da empresa, dos companheiros ausentes, das companheiras futéis...
Os problemas de Rui bem mais existenciais do que todos esses mundanos afazeres, passavam antes por uma eterna procura de perceber o porquê da sua existência, para o que é que seria talhado, se lá fora a sua alma gémea o procurava enquanto ele estava confortavelmente agarrado à sua sólida, duradoura e estável relação amorosa.
Para Rui o existencialismo tinha sido sempre uma forma de estar na vida e de repente deparava-se com uma situação quase incompatível com ela.
Era tão mais confortável perseguir eternamente o sonho do que este realizar-se. E agora o que iria comandar a sua vida...
Talvez fosse tudo uma questão de tempo até que outro sonho surgisse para ser perseguido.

Domingo, Junho 22, 2008

O fim

A fonte secou.
Obrigado a todos aqueles que por aqui passaram e incentivaram.
Obrigado também às criticas mesmo que tenham sido deixadas a meio.
Talvez nos voltemos a encontrar.