"És tão bonita", dizia-me ele enquanto acariciava a sua gata cinzenta e peluda.
Matilde, a gata, deitada sobre o seu dono, ronronava alerta e desconfiada das suas palavras, embora se deleitasse com a doce passagem da mão máscula conhecida.
Do outro lado da linha, eu, também desconfiada, interrogava-me se aquelas palavras eram de facto para mim, mas ao mesmo tempo sorria e derretia...
Ouvia o ronronar alto da gata, enquanto ele me continuava a bajular.
Há muito que desconfiava dos homens em geral, mas acabava sempre por cair na sua conversa quente e envolvente...
Desta vez, o pior era a voz. Um pouco rouca, sensual, com uma genuína nota de preocupação (seria?) aqui mesmo a seduzir-me junto ao ouvido...
Sentia a respiração no meu pescoço... um leve perfume misturado com o odor masculino... A mente prega-nos belas partidas!
Lembrava-me de quando ainda nem sequer sabia o seu nome. O olhar meigo e o ar responsável conferiam-lhe um ar respeitável e inócuo. Mas a sua lábia era infinita e bem disfarçada e, só depois de algum tempo percebiamos que, afinal, não se tratava de um espécime completamente inofensivo.
A cabeça dizia-me para ter juízo, a luxúria obrigava-me a continuar no jogo.
No entanto, sabia que no fim, como dizia a música foleira, haveria sempre um "corazón partío"!
estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)
Quarta-feira, Junho 27, 2007
Segunda-feira, Junho 11, 2007
Hoje pensei em ti.
Ou melhor, obrigaste-me a pensar. Surgiste de repente. Não ao de leve como é teu hábito, mas em força, sugando toda a energia concentrada em afazeres exigentes.
Não pediste para entrar...
Entraste simplesmente como se tudo fosse teu. Como se tivesses as chaves desta casa que não é tua, que nunca foi...
Estranhei-te, há anos que não vinhas.
Já não te conheço. Já não te sei imaginar.
Não sei como é a tua face com o passar dos anos.
Não sei como é o teu cabelo, ou sequer se tens cabelo...
Estranhei-te...
Porque vieste?
Costumavas aparecer quando eu pedia...
Aparecias quando eu sentia que era tempo de avaliar tudo...
Na altura de tomar decisões...
De seguir em frente rasgando mais uma página de um qualquer calendário foleiro...
Pergunto-me se o que nos une é um amor secreto e eterno? Se é que o que alguma vez sentimos foi amor.
Sei que estamos ligados, sempre estivemos...
Interrogo-me por onde andas?
Estarás vivo? Morto?...
Porquê hoje? Porquê especificamente hoje?
Ou melhor, obrigaste-me a pensar. Surgiste de repente. Não ao de leve como é teu hábito, mas em força, sugando toda a energia concentrada em afazeres exigentes.
Não pediste para entrar...
Entraste simplesmente como se tudo fosse teu. Como se tivesses as chaves desta casa que não é tua, que nunca foi...
Estranhei-te, há anos que não vinhas.
Já não te conheço. Já não te sei imaginar.
Não sei como é a tua face com o passar dos anos.
Não sei como é o teu cabelo, ou sequer se tens cabelo...
Estranhei-te...
Porque vieste?
Costumavas aparecer quando eu pedia...
Aparecias quando eu sentia que era tempo de avaliar tudo...
Na altura de tomar decisões...
De seguir em frente rasgando mais uma página de um qualquer calendário foleiro...
Pergunto-me se o que nos une é um amor secreto e eterno? Se é que o que alguma vez sentimos foi amor.
Sei que estamos ligados, sempre estivemos...
Interrogo-me por onde andas?
Estarás vivo? Morto?...
Porquê hoje? Porquê especificamente hoje?
Terça-feira, Junho 05, 2007
Conheceram-se numa festa em casa de amigos comuns. Ambas vestiam de preto, vestidos simples e compridos, adornados por colares vistosos, no seu caso e no caso dela, discretos mas completados por uma longa cabeleira doirada, que caia em cascata pelas costas nuas. Lembrava-se do visível entusiasmo do amigo ao apresentá-las dizendo que certamente se dariam bem. A empatia foi, de facto, imediata. Quem as observava lado a lado constatava que, apesar das diferenças notórias nas feições e no porte, pareciam ter trocado adereços e roupas, brincando num mesmo armário comum enquanto experimentavam o que melhor lhes assentava. Pareciam ter a mesma posição algo crítica perante a vida e conversaram animadamente toda a noite, trocando olhares cúmplices e sorrisos calorosos. Não percebera de imediato o interesse dela, pensara que mais uma vez tivera a sorte de encontrar uma amizade inesperada, mas alicercada numa coincidência de caracteres e de convicções que as juntara por acaso mas as mantinha harmoniosamente unidas. Ambas viviam uma vida solitária por opção, apesar do desespero materno e das bocas crúeis que ouviam constantemente sobre a sua idade e sobre o desperdício que era mulheres bonitas estarem sós. A sociedade moderna mas ainda muito machista em que viviam, não se padecia de um desrespito eplas normas instituídas em que apesar de tudo uma mulher em última análise constituiria uma familia. Estavam em sintonia em quase tudo e aos poucos começara a dexconfiar de um interesse para além da amizade.
Os cumprimentos eram diferentes, o sorriso aberto e radioso quando se encontravam não era presente para todos, como já tivera oportunidade de verificar e a cumplicidade que haviam criado mal se tinham conhecido crescia de dia para dia. Nunca lhe tinha ocorrido que pudesse ser alvo do interesse de uma mulher. Sentia-se como se o mundo tivesse até agora sido inatamente heterossexual e de repente se abrisse uma porta paralela para um local onde todos os comportamentos eram possíveis e não eram olhados com desconfiança ou repulsa!
A atracção pelos homens era algo que conhecia bem e que já lhe dera problemas, mas esta era uma sensação nova, desconhecida, estranha.
Perguntava-se o que significava exactamente isto.
Interrogava-se se teria sido assim que o seu tio se havia sentido ao perceber pela primeira vez que era homossexual...
Continuava a sentir um profundo interesse pelo sexo oposto e encarava toda esta situação como um mero percalço no caminho; mas não deixava de se sentir especial quando a intensa troca de olhares com aquela mulher fascinante parecia gritar: "leva-me contigo!".
No entanto, a vergonha ditada por uma rígida educação católica acabava inevitavelmente por ganhar, relembrando-lhe que "moças de boas famílias não se prestam a esse tipo de papéis!"
Os cumprimentos eram diferentes, o sorriso aberto e radioso quando se encontravam não era presente para todos, como já tivera oportunidade de verificar e a cumplicidade que haviam criado mal se tinham conhecido crescia de dia para dia. Nunca lhe tinha ocorrido que pudesse ser alvo do interesse de uma mulher. Sentia-se como se o mundo tivesse até agora sido inatamente heterossexual e de repente se abrisse uma porta paralela para um local onde todos os comportamentos eram possíveis e não eram olhados com desconfiança ou repulsa!
A atracção pelos homens era algo que conhecia bem e que já lhe dera problemas, mas esta era uma sensação nova, desconhecida, estranha.
Perguntava-se o que significava exactamente isto.
Interrogava-se se teria sido assim que o seu tio se havia sentido ao perceber pela primeira vez que era homossexual...
Continuava a sentir um profundo interesse pelo sexo oposto e encarava toda esta situação como um mero percalço no caminho; mas não deixava de se sentir especial quando a intensa troca de olhares com aquela mulher fascinante parecia gritar: "leva-me contigo!".
No entanto, a vergonha ditada por uma rígida educação católica acabava inevitavelmente por ganhar, relembrando-lhe que "moças de boas famílias não se prestam a esse tipo de papéis!"
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