A menina cabisbaixa seguia atrás da matrona baixa e muito gorda que se movia com dificuldade devido ao excesso de peso e aos sacos carregados que trazia em cada uma das mãos. A cada passo os peitos pesados pareciam querer desintegrar-se, ou simplesmente soltar-se daquele corpo, como se se tratassem de dois seres independentes presos numa armação fraca. Para além do aspecto de desleixo visível, conseguido certamente pelo maltratar contínuo de uma vida triste, a roupa cheia de nódoas e marcada pelo uso pouco favorecia o conjunto. A completar o espectáculo pouco agradável, o cabelo desgrenhado parecia ter sido preso num carrapito à toa, após uma selvática luta nocturna com a almofada. A cara de traços vagos exibia um semblante mal-humorado que era, provavelmente, a causa da tristeza da pequenita comprometida que não largava uma enorme boneca de pano que arrastava consigo.
A míuda parecia grande para a idade que deveria ter na realidade. A carinha triste era emoldurada por um cabelo castanho preso por dois laços de cada lado, e como qualquer miúda pequena os seus olhos eram enormes, mas contrariamente ao normal, estavam mortiços.
As duas figuras passaram por mim, viraram a esquina e nunca mais as vi.
estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)
Domingo, Maio 20, 2007
Segunda-feira, Maio 14, 2007
Cansado de mais um dia de trabalho, conduzia vagarosamente a carrinha familiar que a mulher tanto insistira em comprar quando os três filhos já se acotovelavam no pequeno carro que tinham. Na altura cedera mas agora arrependia-se, pois os filhos já tinham os seus próprios transportes e as férias de verão juntos começavam a ser uma doce lembrança.
Ao avançar na fila de carros que saia do parque, ia relembrando a semana cansativa. Absorto nos pensamentos avançou para cima da passadeira sem reparar que alguém, também distraído, punha um pé na primeira lista branca. Virou-se com o movimento de cor e apercebeu-se de um sorriso de reconhecimento que se formava na cara da jovem que continuava a avançar de forma atrapalhada com a sua grande mala numa mão e óculos e telefone noutra, num conjunto desalinhado e trapalhão, com o seu quê de leveza e despreocupação. Sorriu, retribuíndo o sorriso jovial, mas algo tímido e ingénuo, que ela lhe enviara. Ela passou. Ele avançou um pouco mais na fila de saída agora relembrando o fugaz momento. Alguns pensamentos incoerentes reuniam-se numa amálgama que começava a ter forma. Imaginava uma cena de sedução em que ele era o galã, mas envergonhado tentou apagar essas ideias da mente. Sentia-se um depravado. Afinal ela seria pouco mais velha que a sua filha... Mas na solidão da cansada fila de fim de tarde não conseguia prender a imaginação fértil que já se perdia no balouçar de ancas da moça.
A fila avançou. Era altura de começar a percorrer o caminho para casa, onde a mulher o esperava com o jantar na mesa. Parecia ter sido ontem que ambos falavam do futuro numa festa qualquer, afirmando que não seriam como os respectivos Pais.
Algures no caminho perderam-se seguindo o mesmo velho trilho de toda a gente...
Ao avançar na fila de carros que saia do parque, ia relembrando a semana cansativa. Absorto nos pensamentos avançou para cima da passadeira sem reparar que alguém, também distraído, punha um pé na primeira lista branca. Virou-se com o movimento de cor e apercebeu-se de um sorriso de reconhecimento que se formava na cara da jovem que continuava a avançar de forma atrapalhada com a sua grande mala numa mão e óculos e telefone noutra, num conjunto desalinhado e trapalhão, com o seu quê de leveza e despreocupação. Sorriu, retribuíndo o sorriso jovial, mas algo tímido e ingénuo, que ela lhe enviara. Ela passou. Ele avançou um pouco mais na fila de saída agora relembrando o fugaz momento. Alguns pensamentos incoerentes reuniam-se numa amálgama que começava a ter forma. Imaginava uma cena de sedução em que ele era o galã, mas envergonhado tentou apagar essas ideias da mente. Sentia-se um depravado. Afinal ela seria pouco mais velha que a sua filha... Mas na solidão da cansada fila de fim de tarde não conseguia prender a imaginação fértil que já se perdia no balouçar de ancas da moça.
A fila avançou. Era altura de começar a percorrer o caminho para casa, onde a mulher o esperava com o jantar na mesa. Parecia ter sido ontem que ambos falavam do futuro numa festa qualquer, afirmando que não seriam como os respectivos Pais.
Algures no caminho perderam-se seguindo o mesmo velho trilho de toda a gente...
Terça-feira, Maio 01, 2007
Sentira-o descer logo cedo. Meia estremunhada tentou ver as horas. 6.30! Fez um trejeito de incompreensão, mas o sono era ainda muito e voltou a enroscar-se no confortável calor que o edredon fofo lhe fornecia. Voltou a acordar passado uma hora. Estendeu a mão ainda de olhos fechados mas só encontrou vazio. Começava a ficar com a habitual sobrancelha da inquietação levantada.
Levantou-se meio atordoada e desceu as escadas estreitas do sotão. Encontrou-o desgrenhado e em boxers agarrado furiosamente ao computador. Uma leve música soava, mas os sons eram difusos e estranhos. Ele nem se apercebera da sua presença, continuando embrenhado no écrã. Olhava-o incrédula à espera que ele dêsse pela sua presença. 1minuto...2 minutos... tocou-lhe ao de leve por cima da fina t-shirt. Sentiu-o gelado. Ele olhou-a de forma esgazeada. À sua frente um documento do word aberto fazia suspeitar mais um acesso desregrado de escrita.
Estava preocupada, mas farta. Dirigiu-se à cozinha pensativa. Ele não a seguiu.
Fez café e tomou-o ao som dos primeiros raios de sol primaveris, uma cacofonia esplêndida chamava-a para a rua. Dirigiu-se ao quarto. Vestiu-se pegou na máquina fotográfica e na mala de viagem com que chegara na noite anterior e saiu.
Ao longe ouvira ainda o som das teclas, mas nem uma palavra.
A luz matinal de Lisboa esperava-a, e o caminho de volta à sua planície aconchegante seria certamente prolífero.
Levantou-se meio atordoada e desceu as escadas estreitas do sotão. Encontrou-o desgrenhado e em boxers agarrado furiosamente ao computador. Uma leve música soava, mas os sons eram difusos e estranhos. Ele nem se apercebera da sua presença, continuando embrenhado no écrã. Olhava-o incrédula à espera que ele dêsse pela sua presença. 1minuto...2 minutos... tocou-lhe ao de leve por cima da fina t-shirt. Sentiu-o gelado. Ele olhou-a de forma esgazeada. À sua frente um documento do word aberto fazia suspeitar mais um acesso desregrado de escrita.
Estava preocupada, mas farta. Dirigiu-se à cozinha pensativa. Ele não a seguiu.
Fez café e tomou-o ao som dos primeiros raios de sol primaveris, uma cacofonia esplêndida chamava-a para a rua. Dirigiu-se ao quarto. Vestiu-se pegou na máquina fotográfica e na mala de viagem com que chegara na noite anterior e saiu.
Ao longe ouvira ainda o som das teclas, mas nem uma palavra.
A luz matinal de Lisboa esperava-a, e o caminho de volta à sua planície aconchegante seria certamente prolífero.
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