estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)

Segunda-feira, Abril 30, 2007

Estava tudo calmo, como de habitual. Sentia-se confortável naquela escuridão quente e húmida. Ontem achava ele (mas não sabia bem) sentira as àguas um pouco agitadas, ao almoço tinha havido barulho. Ouvira gargalhadas e música e aos poucos percebera que seria mais um daqueles dias em que se iria sentir pressionado por cima e por baixo. De facto tal acontecera, mas o mais estranho tinham sido aquelas ondas.
Preparava-se para a sua soneca quando de repente surgiu uma onda forte. Sentiu aquela sombra suave e quente que surgia regularmente e lhe acenava lentamente. Acalma-se um pouco para logo a seguir sentir um outro estremecimento desta vez mais forte. A àgua que o envolve começa a escorrer e uma massa quente e viscosa começa a contactar consigo. Fica um pouco assustado. Não percebe o que se passa. Porque será que lhe estão a retirar o meio simpático e confortável que o envolve? Sente-se escorregar, a cabeça embate suavemente numa superfície mole e desconhecida. Sente uma pressão em cima, em baixo, nos pés... Mas que raio está a acontecer?! Apercebe-se que já não há sombras a confortá-lo. Sente que algo não está bem mas não percebe o quê. Há guinchos, esforço. De onde vêem? Sente-se sufocar, a cabeça começa a entrar num túnel apertado e esponjoso. É desconfortável, quer gritar mas não consegue, está demasiado apertado. Começa a sentir frio na nuca, é uma sensação nova. Sente que lhe tocam, tentam puxá-lo, ele quer sair mas é dificil, está demasiado apertado. Deixou de estar escuro, surge a claridade. A cabeça já não está no túnel. Olha em volta . É tudo branco e há uns pontos luminosos que o ofuscam. Continuam a puxá-lo. Agora viram-no de pernas para o ar, sente uma palmada no rabo e desata a berrar. Mas continua a ser dificil. Gorgoleja. Ar. Água. Umas mãos puxam-no, é deitado num sítio qualquer e começam a apertá-lo, a espremê-lo. Irrita-se! Mas que raio! Porque é que me espremem, continua a berrar, já o faz com mais convicção. Berra, berra... Umas mãos suaves estão agora a limpá-lo, a vesti-lo, acalma-se, já só emite uns sons. Põe-no em cima de um local quente e mole sente uns braços a envolvê-lo. A luz já não é tão difusa, vê umas sombras, reconhece aquela sombra quente, o cheiro, já não está dentro do quente, mas sabe que é ali o lugar dele.
"João! João! Acorda! O que é que se passa?"
Luísa olha preocupada para ele. João interroga-se que raio de sonho era aquele...

Sexta-feira, Abril 13, 2007

Era dia das bruxas. pelo menos na pequena terra de onde vinha era... Duvidava que alguém em Lisboa soubesse desse facto, mas para ela era importante.
Vestiu-se de branco nesse dia. Havia um ritual sistemático guardado para os dias especiais e este era um deles. Sentia-se ridícula ao fazê-lo, mas o medo incutido desde a nascença era mais forte e e obrigava-a a seguir cada passo escrupulosamente. Por vezes parecia ainda ouvir a avó a contar-lhe todas aquelas histórias assustadoras sobre o que acontecera a quem não tivera todos os cuidados. Sabia que era um medo irracional. A sua formação em ciências entrava categoricamente em conflito com todos estes mitos e superstições... inclusivé tivera já algumas situações embaraçosas por cumprir os passos todos... Acabou de se vestir. Mastigou vigorosamente o dente de alho picante imaginando ter uma pastilha de outra coisa qualquer menos agressiva. Pôs a cruz de madeira pesada ao pescoço e benzeu-se três vezes olhando para o pequeno Jesus Cristo do poster foleiro que comprara na noite anterior e que, no dia seguinte iria directamente para a lixeira municipal. Saiu descendo as escadas três a três de cruz na mão e rezando para não encontrar nenhum dos vizinhos dos andares abaixo. Ao chegar à rua olhou directamente para o sol que a cegou, fechou os olhos e depois atravessou-a às escuras rezando mais uma vez para este ano não ser atropelada. Na aldeia tudo era diferente pensou momentaneamente continuando.
(Um guinar surdo de um carro foi ouvido, deviou-se dela por um instante e embateu contra uma menina de 8 anos que se dirigia para a Escola mais à frente...)

Quarta-feira, Abril 11, 2007

Já não era a primeira vez que se cruzavam nos corredores do enorme edifício. Sempre que tal acontecia ela timidamente olhava-o de relance, constatando tristemente que ele não retirara os olhos do que se estendia à sua frente.
Não imaginava que ele ao passar a observava discretamente e reconhecia a figura simpática com quem se cruzava há muito. Já perdera a conta aos encontros furtivos naqueles corredores assépticos e cinzentos.
Ela pensava ser-lhe completamente desconhecida. Nesse dia porém, ao chegar atrasada e esbaforida, dobrou a esquina do longo corredor chocando de frente com ele. Deixou cair atrapalhada tudo o que trazia e pediu desculpa atabalhoadamente, precipitando-se aos seus pés para recolher as folhas espalhadas. Ele riu-se discretamente da cena caricata e baixou-se ajudando-a a juntar os pertencentes caídos em volta. Tocou-lhe discretamente na mão, mas ela nem reparou. Sorriu-lhe enquanto se erguiam.
Depois de murmurar um segundo pedido de desculpas, afastou-se apressada com a mão por ele tocada ainda a tremer e perguntando-se se este fora inadvertido ou não.
Poucos metros mais á frente uma pequenita sorridente correu para os braços abertos dele e a mulher voluptuosa que a seguia olhou-os aprovadoramente debruçando-se para encontrar os lábios dele estendidos e prontos a receber o beijo confiante que ela lhe deu.