Estava tudo calmo, como de habitual. Sentia-se confortável naquela escuridão quente e húmida. Ontem achava ele (mas não sabia bem) sentira as àguas um pouco agitadas, ao almoço tinha havido barulho. Ouvira gargalhadas e música e aos poucos percebera que seria mais um daqueles dias em que se iria sentir pressionado por cima e por baixo. De facto tal acontecera, mas o mais estranho tinham sido aquelas ondas.
Preparava-se para a sua soneca quando de repente surgiu uma onda forte. Sentiu aquela sombra suave e quente que surgia regularmente e lhe acenava lentamente. Acalma-se um pouco para logo a seguir sentir um outro estremecimento desta vez mais forte. A àgua que o envolve começa a escorrer e uma massa quente e viscosa começa a contactar consigo. Fica um pouco assustado. Não percebe o que se passa. Porque será que lhe estão a retirar o meio simpático e confortável que o envolve? Sente-se escorregar, a cabeça embate suavemente numa superfície mole e desconhecida. Sente uma pressão em cima, em baixo, nos pés... Mas que raio está a acontecer?! Apercebe-se que já não há sombras a confortá-lo. Sente que algo não está bem mas não percebe o quê. Há guinchos, esforço. De onde vêem? Sente-se sufocar, a cabeça começa a entrar num túnel apertado e esponjoso. É desconfortável, quer gritar mas não consegue, está demasiado apertado. Começa a sentir frio na nuca, é uma sensação nova. Sente que lhe tocam, tentam puxá-lo, ele quer sair mas é dificil, está demasiado apertado. Deixou de estar escuro, surge a claridade. A cabeça já não está no túnel. Olha em volta . É tudo branco e há uns pontos luminosos que o ofuscam. Continuam a puxá-lo. Agora viram-no de pernas para o ar, sente uma palmada no rabo e desata a berrar. Mas continua a ser dificil. Gorgoleja. Ar. Água. Umas mãos puxam-no, é deitado num sítio qualquer e começam a apertá-lo, a espremê-lo. Irrita-se! Mas que raio! Porque é que me espremem, continua a berrar, já o faz com mais convicção. Berra, berra... Umas mãos suaves estão agora a limpá-lo, a vesti-lo, acalma-se, já só emite uns sons. Põe-no em cima de um local quente e mole sente uns braços a envolvê-lo. A luz já não é tão difusa, vê umas sombras, reconhece aquela sombra quente, o cheiro, já não está dentro do quente, mas sabe que é ali o lugar dele.
"João! João! Acorda! O que é que se passa?"
Luísa olha preocupada para ele. João interroga-se que raio de sonho era aquele...
estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)
Segunda-feira, Abril 30, 2007
Sexta-feira, Abril 13, 2007
Era dia das bruxas. pelo menos na pequena terra de onde vinha era... Duvidava que alguém em Lisboa soubesse desse facto, mas para ela era importante.
Vestiu-se de branco nesse dia. Havia um ritual sistemático guardado para os dias especiais e este era um deles. Sentia-se ridícula ao fazê-lo, mas o medo incutido desde a nascença era mais forte e e obrigava-a a seguir cada passo escrupulosamente. Por vezes parecia ainda ouvir a avó a contar-lhe todas aquelas histórias assustadoras sobre o que acontecera a quem não tivera todos os cuidados. Sabia que era um medo irracional. A sua formação em ciências entrava categoricamente em conflito com todos estes mitos e superstições... inclusivé tivera já algumas situações embaraçosas por cumprir os passos todos... Acabou de se vestir. Mastigou vigorosamente o dente de alho picante imaginando ter uma pastilha de outra coisa qualquer menos agressiva. Pôs a cruz de madeira pesada ao pescoço e benzeu-se três vezes olhando para o pequeno Jesus Cristo do poster foleiro que comprara na noite anterior e que, no dia seguinte iria directamente para a lixeira municipal. Saiu descendo as escadas três a três de cruz na mão e rezando para não encontrar nenhum dos vizinhos dos andares abaixo. Ao chegar à rua olhou directamente para o sol que a cegou, fechou os olhos e depois atravessou-a às escuras rezando mais uma vez para este ano não ser atropelada. Na aldeia tudo era diferente pensou momentaneamente continuando.
(Um guinar surdo de um carro foi ouvido, deviou-se dela por um instante e embateu contra uma menina de 8 anos que se dirigia para a Escola mais à frente...)
Vestiu-se de branco nesse dia. Havia um ritual sistemático guardado para os dias especiais e este era um deles. Sentia-se ridícula ao fazê-lo, mas o medo incutido desde a nascença era mais forte e e obrigava-a a seguir cada passo escrupulosamente. Por vezes parecia ainda ouvir a avó a contar-lhe todas aquelas histórias assustadoras sobre o que acontecera a quem não tivera todos os cuidados. Sabia que era um medo irracional. A sua formação em ciências entrava categoricamente em conflito com todos estes mitos e superstições... inclusivé tivera já algumas situações embaraçosas por cumprir os passos todos... Acabou de se vestir. Mastigou vigorosamente o dente de alho picante imaginando ter uma pastilha de outra coisa qualquer menos agressiva. Pôs a cruz de madeira pesada ao pescoço e benzeu-se três vezes olhando para o pequeno Jesus Cristo do poster foleiro que comprara na noite anterior e que, no dia seguinte iria directamente para a lixeira municipal. Saiu descendo as escadas três a três de cruz na mão e rezando para não encontrar nenhum dos vizinhos dos andares abaixo. Ao chegar à rua olhou directamente para o sol que a cegou, fechou os olhos e depois atravessou-a às escuras rezando mais uma vez para este ano não ser atropelada. Na aldeia tudo era diferente pensou momentaneamente continuando.
(Um guinar surdo de um carro foi ouvido, deviou-se dela por um instante e embateu contra uma menina de 8 anos que se dirigia para a Escola mais à frente...)
Quarta-feira, Abril 11, 2007
Já não era a primeira vez que se cruzavam nos corredores do enorme edifício. Sempre que tal acontecia ela timidamente olhava-o de relance, constatando tristemente que ele não retirara os olhos do que se estendia à sua frente.
Não imaginava que ele ao passar a observava discretamente e reconhecia a figura simpática com quem se cruzava há muito. Já perdera a conta aos encontros furtivos naqueles corredores assépticos e cinzentos.
Ela pensava ser-lhe completamente desconhecida. Nesse dia porém, ao chegar atrasada e esbaforida, dobrou a esquina do longo corredor chocando de frente com ele. Deixou cair atrapalhada tudo o que trazia e pediu desculpa atabalhoadamente, precipitando-se aos seus pés para recolher as folhas espalhadas. Ele riu-se discretamente da cena caricata e baixou-se ajudando-a a juntar os pertencentes caídos em volta. Tocou-lhe discretamente na mão, mas ela nem reparou. Sorriu-lhe enquanto se erguiam.
Depois de murmurar um segundo pedido de desculpas, afastou-se apressada com a mão por ele tocada ainda a tremer e perguntando-se se este fora inadvertido ou não.
Poucos metros mais á frente uma pequenita sorridente correu para os braços abertos dele e a mulher voluptuosa que a seguia olhou-os aprovadoramente debruçando-se para encontrar os lábios dele estendidos e prontos a receber o beijo confiante que ela lhe deu.
Não imaginava que ele ao passar a observava discretamente e reconhecia a figura simpática com quem se cruzava há muito. Já perdera a conta aos encontros furtivos naqueles corredores assépticos e cinzentos.
Ela pensava ser-lhe completamente desconhecida. Nesse dia porém, ao chegar atrasada e esbaforida, dobrou a esquina do longo corredor chocando de frente com ele. Deixou cair atrapalhada tudo o que trazia e pediu desculpa atabalhoadamente, precipitando-se aos seus pés para recolher as folhas espalhadas. Ele riu-se discretamente da cena caricata e baixou-se ajudando-a a juntar os pertencentes caídos em volta. Tocou-lhe discretamente na mão, mas ela nem reparou. Sorriu-lhe enquanto se erguiam.
Depois de murmurar um segundo pedido de desculpas, afastou-se apressada com a mão por ele tocada ainda a tremer e perguntando-se se este fora inadvertido ou não.
Poucos metros mais á frente uma pequenita sorridente correu para os braços abertos dele e a mulher voluptuosa que a seguia olhou-os aprovadoramente debruçando-se para encontrar os lábios dele estendidos e prontos a receber o beijo confiante que ela lhe deu.
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