Tinha-se em muito boa conta do alto dos seus 50 anos. Achava que a idade merecia respeito, mas quando abria a boca a sua ignorância era notória e a sua falta de inteligência, também. Ao longo da vida preocupara-se apenas com as aparências e agora que a beleza da juventude já não existia, dificilmente desviava as atenções das suas barbaridades.
No entanto, sem qualquer pudor continuava a expôr-se vergonhasamente perante um público que ao olhar para ela, ou a gozava ou apenas sentia pena daquela triste personagem.
Ao olhar para o espéctáculo dado pela sua amiga, Amália, que não se considerava uma feminista, achava triste perceber que apesar de tudo o que o 25 de Abril trouxera ainda havia mulheres mais preocupadas em agradar exteriormente.
Já várias vezes tinha sido acusada de ser demasiado séria e castradora pelas suas amigas, e os homens muitas vezes fugiam das suas acérrimas discussões e das suas posições teimosas que defendia até não ter mais argumentos.
A sua atitude tinha-lhe custado algumas amizades e afastara possíveis pretendentes, mas ao mesmo tempo sentia-se orgulhosa da pessoa que era, não se sentia apenas uma mulher, mas uma pessoa completa, que intervia, que tinha opiniões, que deixava uma pequena marca... E ao olhar para o homem a seu lado percebia que, apesar de tudo, havia quem a tivesse visto exactamente como ela era, uma frágil mulher a tentar conquistar um mundo maioritariamente de homens!
Porque não seriam todas como ela?
Seria o seu pensamento uma ode ao feminismo, interrogava-se?
Na realidade, que ganhara a sua amiga com a vaidade?
estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)
Segunda-feira, Dezembro 04, 2006
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