(Visão dele)
Sabia que era lindo de morrer. A expressão já antes tinha sido aplicada à sua pessoa e ele sabia reconhecer o olhar envergonhado de desejo e admiração perante a sua pessoa.
Do alto do seu metro e oitenta era-lhe impossível por um lado passar despercebido por outro não ver os rostos de mulheres e de alguns homens que o olhavam de alto a baixo medindo todos as suas curvas, todos o traços.
Ainda o incomodava perceber não passar de um homem objecto para a grande maioria destes admiradores e desde as primeiras vezes em que compreendera os sorrisinhos estúpidos das miúdas e os olhares medidores, que desenvolvera os seus mecanismos de defesa que o tornavam por vezes antipático e arrogante.
A rapariga que tinha à sua frente não era nem bonita nem feia, nem gorda nem magra, passaria completamente despercebida na multidão não fosse aquele olhar vivo e atento que o trespassava de momento. Incomodado pôs o seu ar de enfado e olhou-a de forma algo desprezível como quem diz: "não sou água para o teu bico!"
Por momentos pareceu-lhe que esta se incomodara pois desviara o olhar perplexo dos seus olhos cor de mar e concentrara-se em algo de interessantíssimo que parecia acontecer no seu caderno. O rapaz percebeu que talvez tivesse ido longe de mais e arrependeu-se um pouco mas pouco havia a fazer até que uma possível aproximação lhes possibilitasse uma eventual troca de palavras e um ajuste de contas esclarecedor.
(Visão dela)
Ao vê-lo entrar na sala acompanhou o seu caminho. Já-o vira de relance e parecera-lhe que uma encarnação de um galã de cinema acabara de entrar na sala. Ele não podia ser indiferente à sua beleza, ninguém poderia ficar imune a tanta perfeição ao olhar-se ao espelho...
Sabia que ele nunca iria sequer reparar que ela existia, era demasiado vulgar e mediana, mas não conseguia parar de imaginar como seria estar com ele na intimidade. Por momentos sentiu vergonha dos seus pensamentos destravados e ao sair do imaginário apercebeu-se da fixaçnao que lhe fizera e do olhar de arrogância e desprezo que ele lhe enviava. Envergonhou-se e rapidamente desviou o olhar, escrevinhando no bloco círculos e setas sem qualquer direcção definida. Enraiveceu-a pensar que afinal este rapaz era como todos os seres cientes do seu aspecto um convencido arrogante que a olhava como se ela não valesse nada.
Jurou a si própria de futuro ter cuidado nas suas admirações e nunca mais ser apanhada a sonhar embasbacada de frente para este homem lindo, perfeito verdadeira encarnação de um Deus grego! Mas também sempre soubera que ninguém é perfeito e normalmente quanto mais bonitos mais futéis e estúpidos...
Quando ele a conhecesse ainda iria perceber que quem não era para o bico dele, era ela!
estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)
Segunda-feira, Outubro 23, 2006
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