estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)

Quinta-feira, Julho 13, 2006

Era a primeira vez que vinha Lisboa. Com os seus tenros 17 anos, sonhava como seria viver na grande cidade, mas ao mesmo tempo, uma ponta de preocupação surgia por não saber se conseguiria estar à altura do que dela esperavam.
Tinham sido muitas horas de viagem desde que deixara a sua terra natal e nunca tinha feito uma viagem tão longa. Sentia-se cansada mas ao mesmo tempo a experiência tinha sido fascinante.
Na escola lembrava-se de ter falado do Palácio do Buçaco, mas nunca esperara visitá-lo já que os seus próprios pais nunca tinham ido além da cidade mais próxima!
Maria deliciara-se com todas as pequenas coisas que vira e absorvia avidamente todas as informações que o Senhor lhe fornecia, sobre as árvores, as estradas, as terras e outras histórias que ele ia contando sobre as suas aventuras e desventuras pelo País.
Mas agora, ao chegar a Lisboa, começava a ficar um pouco assustada, a vida dura que levava em casa de repente parecia-lhe muito menos complicada. Afinal, levantar-se às 6 da manhã para levar as vacas a pastar, não era assim tão complexo e agora, esperava-lhe algo que ela temia não ser capaz de pôr em prática.
Desde pequena que fora reservada mas muito obstinada. Na escola era a melhor aluna mas ao terminar a quarta classe não conseguiu convencer os pais a deixarem-na partir todas as manhãs no autocarro escolar. Os pais alegaram precisar de ajuda nos trabalhos do campo e de casa, e Maria embora entristecida, ficou.
Ao chegar aos 15 anos, tentara convencê-los novamente a deixá-la fazer pelo menos o ciclo preparatório na vila a 15kms, mas eles não cederam. O pai dizia-lhe que ela não precisava de mais escola do que aquela que a terra lhe ensinaria e que, de qualquer forma, nenhum homem quereria casar com uma mulher demasiado esperta!
Quando naquelas férias de verão foi com a sua prima ajudar a limpar a casa dos senhores, não imaginava o que se seguiria.
Os senhores tinham gostado muito dela e da sua prima, e as meninas adoraram-na, havendo uma delas que a seguia para toda a parte. A meio do verão, a Senhora quis falar com a sua prima e ao irem para casa, entusiasmada ela contou-lhe que lhe tinha perguntado se ela não gostaria de ir com os senhores para Lisboa.
A proposta era aliciante, queriam alguém que ajudasse lá em casa e tomasse conta das meninas quando não estavam na escola, ao mesmo tempo que, caso ela quisesse, a deixavam estudar à noite.
Maria invejou a prima.
Como gostaria que lhe perguntassem o mesmo, diria um sim imediato, e as malas estariam prontas no momento seguinte, até porque não tinha muitos pertences.
Mas a prima tinha 20 anos e ela apenas 17 feitos há pouco mais de um mês, os senhores nunca lhe confiariam assim a casa e as crianças, pensava ela...
Lisboa estava já à vista, ou pelo menos assim parecia, já que entravam agora numa estrada mais larga, em que havia muitos mais carros, e estes andavam mais depressa.
Os seus pensamentos voltaram novamente a divagar até há dois ou três dias atrás, em que encontrara a sua prima que lhe dissera já não ir para Lisboa. Desistira da aventura porque segundo se lamentava, "Lisboa era muito longe e tinha ali a família". Perguntara a Maria se ela não quereria ir em vez dela, já que os senhores tinham já tudo programado e iriam ficar muito aborrecidos ao partirem sem ninguém. Maria nem queria acreditar no que ouvia e acenou sem pensar.
Não se lembrava bem de tudo o resto sabia que os pais não tinham ficado muito satisfeitos por perderem as mãos jovens e trabalhadoras, mas de alguma forma a convincente Senhora tinha-os convencido e ali ia ela naquele carro enorme a caminho da nova vida que a esperava.

(escrita a 18 de maio, com pequenos retoques a 13 de julho)