estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)

Quarta-feira, Maio 17, 2006

Sentada em frente à mesa da cozinha descascava calmamente ervilhas enquanto cantarolava baixinho. Lá fora o calor fazia-se sentir, embora ainda não fosse verão, de lenço na cabeça a cobrir os rebeldes cabelos russos, Maria calmamente, mas de forma eficaz pegava numa vagem apertava um pouco e as bolinhas verdes rapidamente saltitavam para dentro do grande alguidar que tinha no colo.
Gostava daquela tarefa, gostava de olhar para aqueles pequenos berlindes verdes e tenros que llhe iam escorregando das mãos. Na cabeça a melodia que ouvira de manhã na rádio, continuava presente e Maria timidamente deixava escapar algumas partes que pensava ter fixado.

Terça-feira, Maio 16, 2006

"A paixão é um sentimento atroz que nos consome por dentro e nos retira todas as energias em prol de uma amor éfemero", começava assim o seu texto sobre amor e as suas variadas vertentes.
Achava irónico ter ficado com este tema uma vez que toda a sua vida tinha sido povoada por sentimentos confusos que não conseguia distinguir e aos quais se recusava chamar amor ou paixão.
Havia apenas um sentimento do qual não se envergonhava e esse era singelo e perfeito, a amizade. Com este sentia-se bem, com os outros o desconforto era total! No entanto, irónicamente era este o tema sobre o qual agora era obrigado a debruçar-se.
Enquanto escutava a música calma em fundo, deixou-se envolver e percebeu que talvez esta o ajudasse a desenvolver as ideias e a divagar um pouco sobre o assunto, no entanto rápidamente o pensamento voou para a rapariga desnuda, estendida languidamente sobre o lençol, que adormecera no início da noite a seu lado.
Sabia que o sentimento que os unia era mais do que a tal amizade que o deixava confortável, mas não conseguia ultrapassar a fobia que tinha e ao sentir que de alguma forma outro sentimento emergia, rápidamente se habituara a ignorá-lo.
Várias vezes o tinham confrontado com esta forma egoista de agir, mas pura e simplesmente tinha-as ignorado a todas. Afinal, se alguma mulher penetrasse através desse muro bem construído certamente destruíria a sua vida equacionada e depois como seria?

Quarta-feira, Maio 03, 2006

As lembranças do renault 5 carregado até acima a subir com dificuldade a rua inclinada, estão tão vivas como se tivesse sido ontem. Lembro-me de como pelo vidro de trás se viam formas indefinidas, e como depois de 10h dentro do carro, que tinham dado para um pouco de tudo, dormir, enjoar, chorar, recuperar..., não me conseguia lembrar de tudo o que teria de tirar lá de dentro, mas esperava, quase horrorizada, o momento em que, calculava, não me esperaria tarefa fácil!
Aos 13 anos não percebemos porque nos obrigam a mudar de casa para terras longínquas, porque nos tiram de repente a segurança dos amigos, da escola conhecida, da casa de sempre...
O primeiro choque tinha acontecido ao empacotar e carregar os carros com os pertences da curta vida mas tão cheia de lembranças, no entanto, só mais tarde me apercebi de como aquele era apenas um pequeno começo para tudo o que me esperava a seguir.
Aos poucos acomodei-me à casa e pessoas estranhas, à escola pequena e intriguenta, às pessoas mesquinhas e metediças, no entanto não consegui integrar-me naquele meio pequeno sem perspectivas, em que as pessoas vivem conformadas às suas vidinhas estúpidas, sem sonhos ou objectivos.
Após estes anos todos continuo a questionar-me que força egoística e determinada nos levou para aquele fim-do-mundo sem perspectivas.
A vida é feita destas coisas e apesar de os anos terem passado nada mudou no fim-do-mundo que sou obrigada a encarar mensalmente, de forma, a reunir-me à familia que espera ansiosamente notícias da civilização por meio de alguém muito pouco civilizado: eu.