estória, nf (bras.) arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção. (in Dicionário Enciclopédico Verbo)

Sábado, Maio 21, 2005

A rapariga chorava, estava numa tristeza sem fim. Sentia-se envolta numa névoa, baralhada com as lágrimas, e ao mesmo tempo, havia aquele estranho que a olhava com um misto de compreensão e sofrimento, e ela não entendia como é que um estranho poderia compreender tudo aquilo pelo qual ela estava a passar.
Aos poucos conseguiu recompôr-se. Já senhora de si, limpou as lágrimas com as costas da mão, sentiu um ligeiro choque ao sentir a mão tão gelada, situou-se e então compreendeu que ao correr para fora da casa quente e aconchegante tinha ficado ao frio sem sequer uma camisola mais quente.
Era inverno, o rapaz do outro lado da cerca olhava a moça emocionada e relembrava-se dele próprio numa situação semelhante há bem pouco tempo. Nunca a tinha visto, mas sentia tudo o que ela sentia.

Sexta-feira, Maio 20, 2005

Pegou na sua guitarra e dedilhou umas cordas, afinou um pouco a sua voz melodiosa e cantou.
A música era sempre a mesma, o ritmo também, mas não era o ritmo da canção folk que se escutava, mas sim o seu ritmo próprio que ninguém conseguia acompanhar à guitarra. E no entanto era delicioso ouvi-la...
Cabelo loiro, pele dourada pelo sol um pouco sardenta. Algumas madeixas escorridas caiam-lhe sobre o rosto e emolduravam a sua cara de lua cheia, um misto de ar angelical e decidido, e um leve arquear de sobrancelhas constante completavam a figura não muito esbelta, mas de um roliço bonito.Esta era a loira.
A morena que sempre a acompanhava tinha um ar decidido e lutador. Parecia sempre saber o que queria, para onde ia. Parecia liderar a dupla, mas depois de se conhecer melhor percebiamos que de facto não havia ali nenhuma arrogância, apenas sinceridade, dinamismo e uma ingenuidade desarmante.
Todos as admiravam de uma forma ou de outra. Os homens cobiçavam-nas, as mulheres invejavam-nas. Eu de certa forma idolatrava-as.
A dupla inseparável...
A sua relação era tão próxima, tão profunda que por vezes se diriam gémeas. No entanto os seus cabelos desmentiam-no, um claro, outro preto como azeviche; um liso e escorrido, outro crespo e forte; e os olhos completavam estas diferenças de forma subtil mas reafirmante, uns cinzentos, verde ou azuis conforme o tempo e o humor, os outros castanhos deslavados, um pouco amarelados, trigueiros.
Os seus caminhos acabaram por se separar, pouco a pouco a loira deixou de cantar e a morena continou a lutar.

Quinta-feira, Maio 19, 2005

Alto e musculado, certamente tinha sido jogador de algum desporto violento, agressivo. As suas mãos eram grandes e os dedos grossos, mas dedilhavam as cordas da viola com suavidade. O companheiro de guitarra portuguesa era muito mais esguio. dedos muito finos e brancos, a aliança destacava-se reluzindo com as luzes do palco. O primeiro de castanho, enfrentava o público com um sorriso discreto de sedutor, ainda que o seu cabelo à escovinha lhe desse um certo ar de rufia. Recordo-me dos seus pés enormes, fechados nuns sapatos bicudos e castanhos, bem assertoados. O esguio de cinzento parecia um bancário ligeiramente desalinhado, mas a sua pose simpática era distante, como se nos dissesse sou de alguém, estou inatingível.
A música que tocavam ia-me arrepiando. Começou nos braços, caminhou para os ombros e desceu até aos seios. Fiquei um pouco envergonhada perante a minha camisola fina de algodão. O sedutor continuou sorrindo, o inatingível, continuou embrenhado na sua guitarra, dedilhando cuidadosamente cada acorde.
Nova música. E surge um novo elemento em cena. Capa negra, barbicha cerrada, ar rude. No entanto, começa a cantar e um som maravilhoso, forte, poderoso, sentido, emerge naquela pequena capela.
A música acaba e sinto as lágrimas quentes a bater no meu peito. Molham-me a camisola e arrepiam-me ainda mais.

Terça-feira, Maio 17, 2005

Música tão triste. Entranha-se nos meus ouvidos,leva-me para um mundo imaginário e triste. Faz-me arrepiar, faz-me sofrer, põe-me triste,mas ainda assim não paro de ouvi-la, não quero parar.
Lembro-me de ti. Lembro-me de quando éramos um só, após o arfar dos nossos corpos. O teu rosto salpicado de pequenos pontos brilhantes, quando a luz incidia sobre a tua barba de homem em rosto de menino.
Perco-me na luz dos teus olhos para perceber que já aqui não estás...

Segunda-feira, Maio 16, 2005

Era um velho, muito velho.
Ouvia música e olhava pela janela, qual gato fechado num apartamento.
Vestia de preto. Chapéu de feltro, camisa de flanela cinzenta, colete gasto e relógio de bolso, parado tal como ele.
Ouvia músicas tristes e olhava... Em frente apenas uma parede com duas pequenas janelas, minúsculas, tão pequenas que dificilmente uma cabeça se assomaria.
Mas o velho não perdia a esperança. Olhava o mundo, ouvia a música e esperava pelo olhar sorridente, que um dia iria espreitar pela tal janela minúscula da parede branca, em frente à sua janela para o mundo.